A metafísica na ciência moderna: uma discussão heideggeriana

ISSN: 2318-9428. V.2, N.2, Outubro de 2015. p. 185-206

DOI: http://dx.doi.org/10.18012/arf.2015.24413

Received: 28/05/2015 | Revised: 28/05/2015 | Accepted: 25/07/2015

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A metafísica na ciência moderna: uma discussão heideggeriana

 

[The metaphysics in the modern science: discussing from heidegger]

 

 

 

 

Resumo: O artigo apresenta duas teses de Heidegger: a interpretação da Crítica da Razão Pura como metafísica e a afirmação da permanência da metafísica na ciência moderna. Em seguida analisa as objeções que Loparic apresenta a essas teses no artigo A metafísica e o processo de objetificação,para enfim argumentar que suas contestações não se sustentam. Loparic afirma que  a Crítica da Razão Pura não se destina a investigar a quididade dos entes, mas as condições nas quais os juízos sintéticos a priori podem ser verdadeiros ou falsos, de modo que o problema tratado por Kant não seria ontológico, mas semântico. Loparic afirma ainda que a ciência moderna deixou o quadro ontológico da metafísica aristotélica, na medida em que não mais se destina a estudar os entes como tais, isto é, como uma coisa em si, mas tão somente investigar a resposta da natureza, mediante intervenção técnica no curso dos processos naturais e, portanto não há sequer resquício da metafísica na ciência moderna. Essas objeções apresentam dificuldades na medida em que o autor se utiliza do conceito tradicional de metafísica para tratar da filosofia de Heidegger. Argumenta-se que o sentido de metafísica para Heidegger não se restringe à concepção de metafísica da tradição, de modo que, constitui um equívoco analisar as teses heideggerianas em conformidade com a leitura da tradição.  Heidegger se pauta na indicação de que Kant se ocupa das condições de possibilidade da compreensão, isto é, do Dasein, enquanto o ente que coloca a pergunta sobre o ser e é nesta dimensão que a Crítica da Razão Pura é recepcionada como metafísica. No tocante à ciência, o filósofo afirma que, mesmo a ciência moderna tendo abandonado a representação de objetos, ela não renunciou e nem poderia renunciar à necessidade de a natureza fornecer dados que se possa calcular e de continuar sendo um sistema disponível de informação, de modo que incide no pronunciamento da ciência moderna uma interpretação de ser, mesmo quando a questão da essência não é levada em consideração.

Palavras-chave: metafísica; Crítica da Razão Pura; ciência; Heidegger; Loparic.

 

Abstract: The paper present two theses of Heidegger: the interpretation of the Critique of Pure Reason as metaphysics and the metaphysics of permanence of the statement in modern science. Then analyzes the objections that Loparic presents these theses in Article Metaphysics and the process of objectification, to finally argue that their objections do not hold up. Loparic states that the Critique of Pure Reason is not intended to investigate the quiddity of beings, but the conditions under which a priori synthetic judgments can be true or false, so the problem addressed by Kant would not ontological, but semantic. That same article also states that modern science has left the ontological framework of Aristotelian metaphysics, in that it no longer intended to study the being as such, ie, as a thing in itself, but only to investigate the response of nature, through technical intervention in the course of natural processes and therefore there is not trace of metaphysics in modern science. These objections have difficulty in that the author uses the traditional metaphysical concept to deal with the philosophy of Heidegger. It is argued that the metaphysical sense for Heidegger is not restricted to the design of the metaphysical tradition, so that is a misconception analyze the Heideggerian thesis in accordance with the reading of tradition. Heidegger is guided in indication that Kant deals with the possibility of understanding conditions, ie, Dasein, while the one who puts the question on the being and it is this dimension that the Critique of Pure Reason is approved as metaphysics. With regard to science, the philosopher says that even modern science has abandoned the representation of objects, it has not renounced and could not renounce the need for nature provide data that can be calculated and remain an available information system, mode that focuses on the pronouncement of modern science to be an interpretation, even when the question of essence is not taken into consideration.

Keywords: metaphysics; Critique of Pure Reason; science; Heidegger; Loparic.

 

 

A metafísica na ciência moderna: uma discussão heideggeriana

Introdução

 

 Nas preleções de Heidegger sobre Nietzsche, revisadas e publicadas nos anos 60 em dois volumes, Nietzsche I e Nietzsche II, consta não apenas a interpretação de Heidegger sobre a filosofia de Nietzsche, mas fundamentalmente o desfecho de suas reflexões acerca da metafísica e sua história. Em um de seus posicionamentos acerca da filosofia de Nietzsche, ele faz a seguinte afirmação que nos convém explorar:

 

 [...] pois o que são os “fatos” da ciência natural e de toda ciência senão determinados fenômenos, interpretados segundo princípios expressos, implícitos ou mesmo absolutamente desconhecidos de uma metafísica, isto é, de uma doutrina do ente na totalidade?!? (HEIDEGGER, 2007 a, p. 290).  

 

 Nesta passagem Heidegger reafirma a intrínseca relação da ciência com a metafísica e recusa a pretensa interpretação em que se afirma a ruptura entre a ciência moderna e a metafísica. Esta passagem nos remete, portanto, à discussão entre duas interpretações distintas desenvolvidas a partir do século XIX. De um lado a concepção segundo a qual permanece a relação de dependência da ciência moderna com a metafísica e, do outro lado, o posicionamento em que se afirma o rompimento da ciência moderna com a metafísica.

        Dois acontecimentos foram extremamente importantes para o surgimento dessas duas correntes interpretativas: o Neokantismo1 que interpretou a Crítica da Razão Pura2 de Kant como uma teoria do conhecimento em oposição a uma interpretação metafísica e o surgimento da física quântica seguido das afirmações de Werne Heisemberg3 acerca da ruptura entre ciência moderna e metafísica.

 

 

A interpretação heideggeriana da Crítica da Razão Pura como metafísica.

 

        Nos anos de atividade filosófica de Heidegger se destacavam duas interpretações acerca da Crítica da Razão Pura: de um lado a neokantiana da escola de Marburgo, representada por Hermann Cohen, Paul Natorp e Ernest Cassire, em que se fazia uma leitura metódica e funcional do “a priori” kantiano definindo-o “anti-metafísica”, e, do outro lado, a “metafísica” ou “ontológica” cujos representantes, ainda oriundos da mesma escola, a exemplo de Hartmann e do próprio Heidegger, questionavam e causavam polêmicas com posicionamento contrário à leitura transcendental interpretada como teoria do conhecimento. Na leitura metafísica ou ontológica do transcendental eles requisitavam um exame das implicações metafísicas do transcendentalismo.

Colocava-se em questão a posição kantiana sobre o âmbito que dava origem ao saber. Na Crítica da Razão Pura consta a seguinte afirmação:

Chamo transcendental a todo o conhecimento que em geral se ocupa menos dos objetos, que do nosso modo de os conhecer, na medida em que este deve ser possível a priori. Um sistema de conceitos deste gênero deveria denominar-se filosofia transcendental (KrV/CRP B25).

        As primeiras incursões de Heidegger na Crítica da Razão Pura visavam tratar dos problemas da metafísica. Nesse período o tema metafísica se intensificava nas discussões com a fenomenologia de Husserl. Rickert e Husserl foram os mestres de Heidegger e haviam definido por transcendental a própria fenomenologia.4
        Enquanto o Neokantismo, a Fenomenologia5 e o Historicismo6 estavam empenhados em resolver o problema da fundamentação do saber por meio da teoria do conhecimento, Heidegger defendia que o fundamento do conhecimento era obscuro e a epistemologia não se constituía como ponto de vista filosófico originário capaz de explicar o conhecimento.
        No confronto com a Crítica da Razão Pura, Heidegger assiná-la que de repente percebeu o sentido da Filosofia Transcendental de Kant em âmbito inteiramente novo7 em relação à leitura dos neokantianos. Estes interpretavam a filosofia transcendental de Kant em estreita relação com o ponto de vista fenomenológico, enquanto Heidegger atentou para a seguinte questão: com a Filosofia Transcendental de Kant a distinção instituída entre coisa em si e fenômeno estava explicitamente eliminada. A leitura kantiana lhe garantia que o fenômeno é a manifestação positiva da essência da coisa. Nessa reflexão, ele concluiu que a doutrina kantiana do conhecimento, ao tempo em que explica acerca do modo em que a coisa se dá (fenômeno) e, ao tempo em que explica a estrutura a priori do conhecimento, ela deve ser interpretada como ontologia, isto é, como explicação do ser da coisa.

        Pode-se dizer que Heidegger é o filósofo de maior projeção do final do séc. XX a defender a Crítica da Razão Pura como ontologia, a ponto de nos dias de hoje a discussão em torno da questão ter que considerar seu posicionamento acerca da Crítica da Razão Pura.

        Este posicionamento de Heidegger em relação à Crítica da Razão Pura está em correspondência com a sua filosofia, sobretudo em dois aspectos importantes: a concepção de sentido como questão chave que libera o ser do homem para compreensão de tudo que é, e sob o qual o homem está sob tutela e; a concepção de metafísica em âmbito diverso daquele concebido na tradição filosófica. Para Heidegger a metafísica não se restringe à investigação do ser do ente. A metafísica expressa o  modus operandi de o pensamento se projetar e se articular como compreensão. A compreensão possibilita o saber que garante o conhecimento que define verdade, valor, objeto, relação, homem e mundo.

        A defesa heideggeriana da Crítica da Razão Pura como fundação da metafísica é pensada pelo filósofo a partir da concepção originária de metafísica, segundo ele, instituída na crítica kantiana. Heidegger não interpreta a Crítica da Razão Pura simplesmente como explicitação dos pressupostos da metafísica tradicional. Ele interpreta a referida obra como exposição das condições e possibilidades do saber metafísico. Portanto constitui um equívoco entrar nesta discussão levando em conta unicamente o sentido de metafísica da tradição, para então advogar que a referida obra kantiana não tem por tarefa investigar o ser do ente e que por isto Heidegger estaria enganado em interpretá-la como metafísica.

        Em Kant e o problema da metafísica, Heidegger remete à definição de conhecimento transcendental8 dado por Kant. Ele afirma que “o conhecimento transcendental não investiga o ente mesmo, mas ao exame da possibilidade da compreensão prévia do ser, o que quer dizer ao mesmo tempo, da constituição ontológica do ser do ente” (HEIDEGGER, 1996 e, p. 24). Conforme Heidegger, o conhecimento transcendental não tem por objeto o ente e, sim, a compreensão de ser. Para Heidegger o ser só é acessível quanto ao seu sentido por meio do único ente que pergunta e compreende ser: o homem enquanto ser-aí (Dasein). Neste sentido o conhecimento transcendental se ocupa das condições de possibilidade da compreensão, isto é, do Dasein, enquanto o ente que coloca a pergunta sobre o ser. Segundo Heidegger, esta é a perspectiva que Kant visa na questão de como é possível o conhecimento do objeto. É mediante a transcendência do ente como tal na compreensão que se abre a possibilidade da explicação: “Elevar a possibilidade da ontologia à categoria de um problema equivale a perguntar pela possibilidade, isto é, pela essência desta transcendência da compreensão do ser; equivale a um filosofar transcendental.” (Ibidem, p. 24). Heidegger continua: “Por isso Kant usa o nome ‘filosofia transcendental’ em lugar de metafísica geral (ontologia), ao caracterizar a problemática da ontologia fundamental” (HEIDEGGER, 1996 e, p. 24). Nas palavras de Heidegger, a verdade ontológica é a verdade transcendental definida por Kant na Crítica da Razão Pura (KrV/CRP, B 185). Posteriormente Heidegger aprofunda a questão e assiná-la não ser apenas a compreensão de ser que torna possível o conhecimento ôntico, incide na questão uma situação fundamentalmente obscura.

Contraponto à tese Heideggeriana

 

        Como contraponto à tese heideggeriana, explicitaremos a crítica que Loparic desenvolve no artigo A metafísica e o processo de objetificação, publicada em 2008. Focaremos nossa atenção em dois pontos específicos da exposição de Loparic que visam desconstruir as concepções Heidegger, a primeira referente à refutação da Crítica da Razão Pura como metafísica e a segunda concernente à refutação da metafísica como a fundamentação nas ciências modernas. Neste segundo ponto, Loparic estabelece como parâmetro da discussão o modelo de ciência desenvolvida na mecânica quântica de Heisenberg. Pontuaremos que Loparic incorre na falta de não atentar para o sentido de metafísica apreendido por Heidegger, tendo se restringido à metafísica no âmbito restrito da ontologia tradicional.

        Na recusa à interpretação heideggeriana acerca da Crítica da Razão Pura, Loparic9 afirma:

 

A objeção consiste em dizer que o problema kantiano da possibilidade dos juízos sintéticos a priori não é um problema ontológico e que, por conseguinte, a teoria kantiana da objetificação não é uma ontologia. Mais precisamente, a pergunta de Kant mencionada não diz respeito à qüididade dos entes em geral, nem mesmo aos do domínio da natureza, mas às condições nas quais os juízos sintéticos a priori podem ser verdadeiros ou falsos. Nesse contexto, dizer que um juízo é possível é o mesmo que afirmar que ele é objetivamente, determinadamente, verdadeiro ou falso. Portanto, o problema tratado por Kant não é ontológico, mas semântico. (LOPARIC, 2008, p. 15).

 

        Loparic (2008, p. 15-16) defende que a Crítica da Razão Pura de Kant não tem a pretensão de tratar do ser do ente. Ele afirma que a referida obra não se destina à explicitação da essência das coisas em geral, considerando-a uma obra restrita ao conhecimento acerca dos princípios da exposição dos fenômenos. Segundo Loparic, a questão kantiana não pode ser tomada por ontologia, tendo em vista que Kant não se propõe a explicitar o ser do ente em geral, tarefa esta definida como própria da ontologia.

        Apesar de parecer que a questão defendida por Loparic na interpretação da Crítica da Razão Pura como teoria do conhecimento é a mesma defendida pelo Neokantismo da escola de Marburgo, no entanto seus argumentos partem de pontos diferentes.

        A defesa em torno da questão kantiana como teoria do conhecimento em contraposição à ontologia tradicional, tal como se deu com o neokantismo da escola de Marburgo, a exemplo de Cohen, Natorp e Cassirer, se debatia em contraposição a uma inserção da problemática kantiana no contexto da metafísica anterior (Leibniz e Wolff) e posterior (Fichte e Hegel). Tal debate foi um confronto com a concepção tradicional de ontologia (FICARA, 2010, p. 82). No caso de Loparic, sua investida confronta com a interpretação de Heidegger acerca da Crítica da Razão Pura. Neste caso, deveria entrar na questão o sentido de metafísica gestado por Heidegger, mas essa consideração não ocorre na exposição de Loparic. Entrar em confronto com Heidegger em defesa da questão kantiana como teoria do conhecimento é problemático, caso se considere por metafísica ou ontologia apenas a concepção restrita de metafísica da tradição.

 Cabe considerar que a dimensão metafísica para Heidegger não se limita a uma pergunta explicita quanto ao ser do ente. A interpretação de Heidegger sobre o sentido de metafísica não se subsume ao da tradição, ainda que o filósofo tenha apreendido um sentido genuíno de metafísica, a partir de sua reflexão acerca da metafísica tradicional. Por isso faz-se importante uma reflexão prévia a fim de entrever qual o sentido de metafísica está em questão para Heidegger na formulação de suas teses. O conceito restritivo de metafísica dado na tradição filosófica se limita a descrever a metafísica como investigação do ser do ente e não abarca a dimensão de metafísica apreendia pelo filósofo, sobretudo nos textos da maturidade.

        Na defesa da questão kantiana como teoria do conhecimento, Loparic chama a atenção para uma afirmação de Kant que, segundo ele, Heidegger nunca citou, mas que seria decisivo para entender que Kant não faz ontologia. Segundo o autor, essa afirmação de Kant teve o propósito de afastar qualquer especulação que associasse a Crítica da Razão Pura à metafísica. Esta de fato pode ter sido a intenção de Kant, no que concerne à metafísica tradicional, mas não no sentido da interpretação de metafísica apreendida por Heidegger, que ainda estava por vir.

 

Contudo, os princípios do entendimento não expressam uma "verdade ontológica", pois não são mais do que "princípios da exposição dos fenômenos, devendo o soberbo nome de ontologia - a qual se arroga o direito de fornecer em uma doutrina sistemática conhecimentos sintéticos sobre coisas em geral (por exemplo, o princípio de causalidade) - ceder lugar ao modesto nome de uma simples analítica do entendimento puro" (1787/1980, p. 303). Esse texto decisivo, jamais (que eu saiba) citado por Heidegger, afirma várias coisas de importância capital que conflitam com o projeto de ler a lógica transcendental como uma ontologia. (LOPARIC, 2008, p. 16).

 

        Perguntar se a Crítica da Razão Pura pode ser interpretada como metafísica ou ontologia não é o mesmo que perguntar se ela pode ser interpretada segundo o sentido de metafísica apreendido por Heidegger10. Heidegger concebe a metafísica em uma dimensão que ultrapassa o âmbito meramente investigativo de um conceito acadêmico que se limita a investigar a quididade dos entes.
        A metafísica no sentido que Heidegger expõe, mostra-se como um constitutivo do ser do homem (Dasein), razão pelo qual o filósofo afirma que o homem é um ser metafísico. Vale salientar que essa dimensão não é explorada no conceito tradicional de metafísica. Heidegger tem sido o responsável por mostrar esse âmbito imperante da metafísica que determina o nosso modo de ver, conceber e transitar no mundo e, portanto, não se restringe a um mero conceito. Para Heidegger, a interpretação de metafísica vai além do que é dito e desenvolvido na tradição filosófica, podendo-se constatar que suas reflexões sobre o tema atestam o caráter abrangente e constitutivo da metafísica na ek-sistência11.  A questão, pensada nos tempos de hoje, não se restringe ao embate entre os que consideram a Crítica da Razão Pura como teoria do conhecimento e aqueles que a concebem como uma investida acerca da quididade dos entes, na qual Heidegger seria um dos porta-vozes. É preciso colocar em questão a formulação de Heidegger sobre a concepção de metafísica e seus desdobramentos na vida fática. Somente a partir desse esclarecimento deve-se colocar em questão e argumentar acerca de sua tentativa em interpretar a Crítica da Razão pura como uma ontologia. O debate deve considerar esse detalhe como decisivo para legitimar a discussão em torno da questão kantiana, todas as vezes que o confronto em questão for a tese heideggeriana.
        A peculiar reflexão de Heidegger acerca da metafísica nos conduz a entender que mesmo uma teoria do conhecimento que se queira distinta do modo de saber da metafísica, não foge aos domínios da metafísica. Ele não pode ser interpretado como saber fora do âmbito metafísico. Heidegger defende que o pensar tal como o interpretamos é metafísico e não é por acaso que pensamos exclusivamente segundo “ideias” e “valores” 12.  Ainda em uma passagem do Nietzsche II, Heidegger afirma que a metafísica como verdade é articulada na palavra do pensamento e tais palavras em sua constituição são as categorias. Conforme o filósofo, ainda quando no comportamento cotidiano as categorias não são experimentadas ou reconhecidas pela maioria dos homens, não se pode defender que essas categorias são algo indiferente, construída supostamente por uma filosofia afastada da vida (HEIDEGGER, 2007 b, p. 54).

 

Nem todos os homens precisam saber que todo o domínio da invenção não teria podido dar um passo à frente se a filosofia não tivesse pensado as categorias dessa natureza no instante histórico em que adentrou o âmbito de sua in-essência e se ela não tivesse aberto, assim, a região para a busca e os experimentos do inventor (HEIDEGGER, 2007 b, p. 55).

 

 No que se refere à negação de Kant quanto à tentativa de se interpretar a analítica transcendental como ontologia, ela visa atacar este conceito em sua pretensão de detentora da verdade acerca do ente em geral como conhecimento. Neste sentido Kant reivindica que não se confunda a analítica transcendental com ontologia. Todavia essa observação de Kant não invalida a interpretação de Heidegger, tendo em vista que o âmbito em que Heidegger dimensiona e está concebendo como metafísica é diverso ao da interpretação da tradição.

 O âmbito da ontologia a que inicialmente Loparic se refere, conforme citação abaixo, é a mesma a que Kant estava a se referir, todavia não corresponde à totalidade do que Heidegger concebe como metafísica.  

 

As proposições fundamentais da Analítica Transcendental não têm uma função "reveladora", teórica, veritativa, mas essencialmente operacional: a de oferecerem regras de formação de conceitos cujos referentes exclusivos são os objetos de um certo tipo - os fenômenos visuais e as relações causais entre eles. A objetificação almejada por Kant é uma "aspectualização" que consiste na redução dos fenômenos a feixes de representações intuitivas ou discursivas, em particular as matemáticas. Aqui, aspectualidade é, portanto, sinônimo de representidade. O que se busca é apresentar as coisas de tal maneira que seja possível descobrir não o que as coisas são, mas o que a natureza faz das coisas. Descobrindo isso, podemos nós mesmos passar a modificar e a produzir as coisas de acordo com nossos fins técnico-práticos e moral-práticos. (LOPARIC, 2008, p. 16).

 

        Loparic toma a concepção de metafísica da tradição para construir seu argumento contra o posicionamento de Heidegger, mas não é a concepção de metafísica da tradição que está em questão para Heidegger. Quando Heidegger se refere à Crítica da Razão Pura como fundação da metafísica, na época quis dizer que Kant de fato revela os fundamentos daquilo que se deve entender por metafísica. Neste dizer deve se atentar que Heidegger estava a se referir a uma interpretação de metafísica desconhecida da tradição e que por ser originária, obviamente é também o fundamento para a metafísica tradicional. O ponto em questão tratado por Heidegger na discussão não se dá na referência à interpretação da metafísica tradicional, mas na compreensão da metafísica inaugurada por Kant.

 Conforme Loparic, Heidegger reconheceu posteriormente como esforço vão, a ontologização do projeto kantiano. Este reconhecimento teria conduzido Heidegger a admitir o enfraquecimento da tese, segundo a qual o processo de objetificação é de origem metafísica. Convém reiterar que o argumento heideggeriano corresponde à sua concepção de metafísica e se guia em conformidade com a sua posição fundamental, sendo assim a discussão teria que atacar em linha direta sua concepção de ser e de metafísica.

        Heidegger, sobretudo nos textos da maturidade, se destina a questionar a concepção de metafísica da tradição. Ao tempo em que ele coloca em questão a concepção tradicional de metafísica, ele apresenta um sentido de metafísica13 desconhecido da tradição. Portanto, constitui um equívoco considerar o pronunciamento de Heidegger acerca da Crítica da Razão Pura, como se ele tivesse interpretado a referida obra de Kant como metafísica na perspectiva da metafísica tradicional.

 

 

Metafísica e ciência

 

        Ainda na esteira da discussão com Heidegger, Loparic (2008, p. 29-30) afirma que a intrínseca relação entre metafísica e as ciências factuais14 foi definitivamente desfeita pela ciência positiva15, a partir do séc. XVII.  Conforme argumentos do autor, a ciência moderna deixou o quadro ontológico da metafísica aristotélica e se apropriou de dois princípios rivais: O matematismo de Pitágoras e o materialismo de Demócrito, numa postura não-husserliana e não fenomenológica em relação ao problema do fundamento (Ibidem, p. 30). Conforme Loparic, a reflexão de Heidegger sobre o estado da filosofia e sobre a ciência da natureza o conduziram  a abandonar a tese da metafísica como disciplina filosófica que fornece os conceitos básicos da ciência positiva. Ainda conforme o autor, esse abandono foi reforçado pelo contato do filósofo com o físico Werner Heisenberg (Ibidem, p. 30-31) nos anos 30.

        Esse entendimento de Loparic é contestável em vários pontos e um deles está no pronunciamento de Heidegger na conferência O fim da filosofia e a tarefa do pensamento, publicado em 1966.

 

As ciências, não obstante, ainda falam do ser do ente ao sentirem-se obrigadas à suposição de suas categorias regionais. Apenas não o dizem expressamente. Podem, sem dúvida, negar sua procedência, não podem, contudo, rejeitá-la. Pois a cientificidade das ciências é a certidão que atesta seu nascimento da Filosofia. (HEIDEGGER, 1996 b, p. 97-98).

 

 Esta citação pertencente à fase tardia de Heidegger, e nela o filósofo reafirma a permanência da base metafísica nas ciências.

Segundo Loparic (2008, p.30), Heidegger teria se referido à metafísica como a base de conceitos para a ciência positiva, apenas em duas obras: Ser e Tempo e em Os conceitos fundamentais da metafísica (Die Grundbegriffe der Metaphysik. Welt-Endlichkeit-Einsamkeit). Ele parece desconhecer a publicaçã dos cursos sobre Nietzsche, revisado pelo próprio Heidegger nos anos 60. Nestes cursos o filósofo mantém o posicionamento segundo o qual as ciências são herdeiras da metafísica. Tal posicionamento é recorrente em outros textos, a exemplo da citação anterior.

        Em seu artigo, Loparic chama a atenção para as afirmações de Werner Heisenberg, realizadas na conferência publicada com o título A imagem da natureza na física contemporânea (Das Naturbild in der heutigen Physik). Nessa conferência Heisenberg apresentou sua concepção de ciência em uma perspectiva diferenciada daquela defendida por Heidegger. Loparic sugere que certamente Heidegger teria sido tocado fortemente por essa nova concepção de ciência defendida por Heisenberg.  Pronunciamento de Loparic em referência a Heisenberg:

 

A ciência da natureza contemporânea não estuda, afirma o físico alemão, os entes como tais, isto é, como coisas em si caracterizadas por uma estrutura categorial explicitável em uma visão de essência ou qualquer outro procedimento da metafísica dogmática. É mais adequado dizer que ela trata das nossas relações com a natureza, fundadas na intervenção técnica no curso dos processos naturais. A questão da existência de partículas elementares "em si", no tempo e no espaço, não pode mais ser colocada, diz Heisenberg, "visto podermos falar sempre somente dos processos que têm lugar quando queremos inferir o comportamento da partícula pela ação recíproca entre ela e qualquer outro sistema físico, por exemplo, o aparelho de medida". "Por isso", prossegue Heisenberg, a noção de realidade objetiva das partículas elementares volatilizou-se extraordinariamente, não na névoa de uma qualquer nova noção de realidade, pouco clara ou ainda incompreendida, mas na transparente clareza de uma matemática que não representa o comportamento da partícula, mas sim o nosso conhecimento do dito comportamento. (1955, p. 12; tr. p. 14; os itálicos são meus). (LOPARIC, 2008, p. 31-32).

Na atual ciência da natureza, o objeto de pesquisa não é mais a natureza em si mesma, mas a natureza subordinada à maneira humana de formular problemas. Daí se segue que estamos numa situação epistemológica inteiramente nova: "a objetificação [Objektivierung] dos processos naturais não é mais possível" (1955, p. 21). Em outras palavras, não existe mais um conceito geral de objeto que possa designar aquilo de que trata a ciência física no seu todo. Sem objeto que possa estudar ao fazer física, "pela primeira vez no decurso da história, o homem encontra-se sobre esta terra sozinho diante apenas de si próprio" (1955, p. 18, itálicos no original). (LOPARIC, 2008, p. 32).

 

 Conforme Loparic, Heisenberg mostrou que a finalidade da física como disciplina científica não é mais a descrição da natureza:

[...] esse modo de representação da natureza foi substituído pela ‘descrição matemática’, que consiste em ‘uma coleção de informações sobre as relações e as leis da natureza, tanto quanto possível, precisa, concisa e ao mesmo tempo compreensível’ (LOPARIC, 2008, p. 33).

 

        No texto o autor afirma que o significado da palavra “compreender” não recebe nenhuma determinação de antemão (Ibidem, p. 33). Conforme Loparic, nos domínios da física quântica de Heisenberg não se estuda mais objetos fenomenais dados na intuição empírica nem se estabelece conexões entre eles, como se fazia na física clássica na época de Kant. Segundo Loparic, na física quântica ocorrem situações de observações intrusivas, isto é, observações dos dados sensíveis pelos quais os fenômenos se manifestam (Ibidem, p. 32). Mediante essa constatação, ele cita a seguinte afirmação de Heisenberg, referenciando aos átomos da física quântica: “Eles são elementos de situações de observação inevitavelmente invasivas que podem ser representados pelos símbolos matemáticos (Heisenberg 1969-10979, p. 72)” (Ibidem, p. 32).

 Loparic segue passo a passo por meio das próprias citações de Heisenberg, com vistas a desconstruir a tese heideggeriana. Ele defende como contra ponto à teoria de Heidegger, que o modo de ser dos entes estudados pela ciência contemporânea é o da representidade (Ibidem, p. 32).  Nesse contexto, ele argumenta que a física quântica retira o solo metafísico atribuído por Heidegger como base da ciência e apresenta a matemática como novo parâmetro para se pensar devidamente o modelo de ciência contemporânea.

        Convém ressaltar que Heidegger não desconhecia as transformações que os novos tempos imprimem às ciências, notadamente na física moderna. Ele inclusive, explicou essas transformações como movimento de consumação do esquecimento do ser, não obstante, permanece a afirmação da metafísica como base das ciências. Conforme Heidegger, as transformações que caracterizam a ciência moderna não fez, desaparecer a metafísica, em vez disso, o domínio metafísico vigora veladamente. Na conferência A pergunta pela técnica (Die Frage nach dem Technik), pronunciada no semestre de inverno de 1953, para uma plateia em sua maioria formada por técnicos e engenheiros, o filósofo faz referência à conferência de Heisenberg16 nos seguintes termos:

 

[...] apesar de ter abandonado a representação de objetos que, até há pouco, era o único procedimento decisivo, a física moderna nunca poderá renunciar à necessidade de a natureza fornecer dados, que se possa calcular, e de continuar sendo um sistema dis-ponível de informações. Trata-se de um sistema que se determina por uma concepção mais um vez alterada de causalidade. Agora a natureza já não demonstra nem o caráter de um deixar-viger pro-dutivo nem o modo de ser da causa efficiens ou até da causa formalis. Pressumivelmente, a causalidade há de se reduzir a uma notificação provocada pelas dis-ponibilidades que se dis-ponham com segurança contínua ou sucessiva. É ao que corresponderia o processo de crescente adaptação, descrito, de maneira impressionante, pela conferência de Heisenberg (HEIDEGGER, 2001 b, p. 26).

 

 São muitas as contestações possíveis de serem dirigidas às interpretações de Loparic. Supor que sua interpretação e seus pressupostos são consistentes, significa admitir efetivamente a superação do domínio da metafísica, sob um ponto de vista peculiar. Neste caso, não se trata da superação da metafísica, conforme a projeção de Heidegger, mas da superação do pensamento de Heidegger, tendo em vista que neste caso toma-se como pertinente, unicamente a apreensão de metafísica sob o ponto de vista da tradição filosófica. Admitir unicamente a concepção de metafísica da tradição filosófica significa desconsiderar o pronunciamento de Heidegger em uma das seguintes perspectivas: reconhecendo que Heidegger trata da concepção de metafísica em âmbito diverso da interpretação da tradição filosófica, mas entendendo que tal concepção é inconsistente e deste modo não deve ser considerado; ou no equívoco de considerar que Heidegger concebe unicamente a metafísica do ponto de vista da tradição filosófica.

        É importante considerar que Heisenberg contrastava o novo modelo de ciência moderna com aquela de base aristotélica, portanto, vinculada à concepção da metafísica tradicional. Caberia questionar a Heisenberg primeiramente e depois a Loparic, se, na formulação do que trata a física quântica, não estaria pressuposto o emprego do sentido lógico dos conceitos e das relações, na medida em que supõem válidas e evidentes as observações oriundas da relação homem e natureza? O que está em questão quando se concebe que a física quântica trata das nossas relações com a natureza, se não o sentido lógico dos conceitos e das relações como a base para a pesquisa ciêntifica?

 O que dizer com relação ao fundamento de número e cálculo, implícitos na utilização dessas ferramentas para as novas elaborações que se processam na ciência moderna? Não vige em tais conceitos uma fundamentação de ordem metafísica? Heidegger explicita:

 

[...] pois o que são os fatos da ciência natural e de toda ciência senão determinados fenômenos, interpretados segundo princípios expressos, implícitos ou mesmo absolutamente desconhecidos de uma metafísica, isto é, de uma doutrina do ente na totalidade?!? (HEIDEGGER, 2007 b, p. 290).

 

 Conforme o filósofo, a questão sobre o conhecimento é uma questão metafísica (HEIDEGGER, 2007 a, p. 388). Com base nas palavras de Heidegger, podemos inferir que as observações acerca do comportamento de uma partícula, às quais primeiramente se referiu Heisenberg, transitam no âmbito do conhecimento metafísico na medida em que aponta para um lugar ou uma situação, não importando se ele é fortuito ou não.

O discurso de Heisenberg do qual se vale Loparic, afirma que a ciência moderna não tem a tarefa de pensar a qüididade dos entes. No entanto, isso não significa que as ciências deixaram de se desenvolver em meio aos entes e em atenção a eles. Convém lembrar a amplitude do sentido de ente para Heidegger: “Chamamos de ‘ente’ muitas coisas e em sentido diverso. Ente é tudo de que falamos, tudo que entendemos, com que nos comportamos dessa ou daquela maneira, ente é também o que e como nós mesmos somos (HEIDEGGER, 1998, p. 32).

 Não é por acaso que Heidegger mantém nos anos 60, por ocasião da edição de seus textos sobre Nietzsche, o pronunciamento em que constata a posição ocidental marcada pelo confronto entre o predomínio do ente e a dominação do ser, e em cuja decisão se processa a afirmação do predomínio do ente. O pensamento que se desdobrado nessa direção, diz o filósofo, pode ser designado por meio do termo “metafísica” (HEIDEGGER, 2007 a, p. 372).

 Heisenberg, nas palavras de Loparic, afirma que a física quântica trata das nossas relações com a natureza. Ele observa que neste caso não se deve tomar o termo “natureza” no sentido tradicional como coisa em si mesma, caracterizada por uma estrutura categorial, mas na concepção de natureza subordinada à maneira humana. Se Heisenberg e mesmo Loparic entendem que a física quântica rompe com a metafísica, por não tomar a natureza como coisa em si, nem pleitear investigar a essência das coisas, convém questionar de onde a física quântica retira o sentido do termo empregado “relação” e “maneira humana”? Não incide na apropriação do termo “humana” a concepção de homem e humano utilizada pela ciência a partir do suporte categorial metafísico? Certamente o que é uma “relação” e o que e uma “maneira humana” não são decisões da física quântica como física quântica. Elas são decisões históricas das quais o físico faz uso para tratar do seu objeto de estudo, ainda que se afirme ‘não haver’ um conceito geral de objeto para a física quântica.

        Seguindo na esteira da interpretação de Loparic, infere-se que Heidegger estaria enganado nas suas reflexões sobre o império da metafísica em nossa civilização ocidental. Neste caso nem mesmo a física quântica pode ser concebida como modelo de ciência que se realiza como superação da metafísica, pois conforme afirmação do autor, na citada ciência não há sequer resquício da metafísica. É importante observar que o embate de Heidegger com a metafísica não visa instituir uma cisão entre o saber metafísico e o saber não metafísico, ou entre ciência e metafísica como se houvessem duas construções diferentes fundadas de maneira definitiva uma independente da outra. Vale lembrar que, segundo Heidegger, “[...] tanto a ciência como a metafísica estão fundadas sobre a respectiva dominação de uma determinada interpretação do ser e sempre se movimentam na esfera de domínio de uma determinada concepção de essência da verdade” (HEIDEGGER, 2007 a, p. 405). Mesmo quando a questão da essência não é levada em consideração e quando uma interpretação se mostra flutuante, em tal negação ou em tal indeterminação incide uma tomada de posição sobre a verdade.

 

 

Considerações finais

 

        Constitui-se em equívoco considerar que Heidegger se guia na metafísica tradicional para interpretar a Crítica da Razão Pura como metafísica, e igualmente equívoco considerar que ele apreende a referida obra como metafísica no sentido da concepção tradicional17. Do mesmo modo é um equívoco considerar que sua afirmação acerca da vigência da metafísica na ciência moderna se pauta na concepção restritiva da metafísica tradicional. Conforme se pontuou, o sentido de metafísica para Heidegger não se restringe a uma disciplina acadêmica para investigar o ser do ente enquanto tal e na totalidade, a fim de dar a conhecer a quididade dos entes. Para Heidegger, a metafísica expressa o  modus operandi de o pensamento se projetar e se articular como compreensão. O homem em seu ser, sempre já se encontra no aberto dos entes e como tal ele é um ser metafísico. Metafísica neste sentido nomeia o acontecimento da transcendência fundamental-ontológica própria do Dasein. Essa transcendência se articula na compreensão. A compreensão abre o espaço ontológico que possibilita o saber que garante o conhecimento. Mediante a assunção do conhecimento surgem os conceitos de verdade, valor, objeto, relação, homem e mundo. Portanto há uma diferença entre o conceito de metafísica da tradição e o sentido de metafísica apreendido por Heidegger. Essa diferença precisa ser considerada na análise e interpretação das teses heideggerianas. As teses heideggerianas se afirmam como tentativa de abono da interpretação metafísica da metafísica tradicional.

        É problemático dizer que Heidegger estaria enganado em interpretar a Crítica da Razão Pura como metafísica pelo fato da obra kantiana não se destinar a investigar o ser do ente.   As considerações de Heidegger acerca da referida obra como metafísica se pauta na indicação de que Kant se ocupa das condições de possibilidade da compreensão, isto é, do Dasein, enquanto o ente que coloca a pergunta sobre o ser. Conforme Heidegger, a perspectiva de Kant na questão de como é possível o conhecimento do objeto, remete à transcendência, o acontecimento que se articula na compreensão e promove a justa explicação. Conforme Heidegger, a verdade ontológica é a verdade transcendental definida por Kant na Crítica da Razão Pura e é nesta dimensão que a obra kantiana é recepcionada como metafísica.

        É igualmente problemático tentar refutar a tese heideggeriana da vigência da metafísica na ciência moderna sob a alegação dessa ciência não mais se destinar a estudar os entes como tais, isto é, como uma coisa em si, mas tão somente investigar a resposta da natureza ao sofrer intervenção técnica no curso dos processos naturais.

 Essa contestação não se sustenta pelo mesmo motivo explicitado anteriormente. O pronunciamento de Heidegger acerca da vigência da metafísica na ciência moderna não se restringe à concepção de metafísica da metafísica tradicional. Conforme Heidegger, apesar da ciência moderna ter abandonado a representação de objetos ela não renunciou e nem poderia renunciar à necessidade de a natureza fornecer dados que se possa calcular e de continuar sendo um sistema disponível de informação. Incide no pronunciamento da ciência moderna uma interpretação de ser, mesmo quando a questão da essência não é levada em consideração.

 

 

Referências

 

FICARA, Helena; Heidegger e Il problema della metafísica. Roma:Casini, 2010.

HEIDEGGER, Martin; Nietzsche I, II. (Nietzsche I, II). Trad. Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.

______. Kant y el problema de la metafísica (Kant und das Problem der Metaphysik), tradução para o espanhol de Gred Ibscher Roth. México: Fondo de Cultura Econômica, 1996.

______. O fim da filosofia e a tarefa do pensamento (Das Ende der Philosophie und die Aufgabe des Denkens). Trad. Ernildo Stein. Coleção Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

______. Os conceitos fundamentais da metafísica: mundo, finitude, solidão (Die Grundbegriffe der Metaphysik. Welt-Endlichkeit-Einsamkeit). Trad. Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003.

______. Ser e Tempo I, II (Sein und Zeit). Trad. Márcia de Sá Cavalcante. Petrópolis: Vozes, 1998.

KANT, Immanuel; Crítica da Razão Pura (Kritik der Reinen Vernunft). Trad. Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1994.

______. Kant y el problema de la metafísica (Kant und das Problem der Metaphysik), tradução para o espanhol de Gred Ibscher Roth. México: Fondo de Cultura Econômica, 1996.

LOPARIC, Zeljko. A metafísica e o processo de objetificação. In Natureza Humana – Revista Internacional de Filosofia e Psicanálise, São Paulo, volume10, número 2, p. 09-43, jul/dez, 2008.

______. A linguagem objetificante de Kant e a linguagem não-objetificante de Heidegger. In: Natureza Humana: Revista internacional de filosofia e práticas psicoterápicas, São Paulo, volume 6, número 1, p. 09-27, jan/jun, 2004

WERNER, Heisenberg; A imagem da Natureza na Física Moderna (Das Naturbild in der heutigen Physik). Trad. J. I. Mexia de Brito. Lisboa: Livros do Brasil, 1981.

 

* Doutor em Filosofia pelo Programa Integrado de Doutorado em Filosofia UFPB-UFRN-UFPE (2014), com estágio doutoral na Università degli Studi di Padova - Itália (2013). Professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Graduação em Segurança Pública pela Academia da Polícia Militar da Paraíba (1993) e graduação em Administração de Empresas pela Universidade Federal da Paraíba (1990). m@ilto: fosilva@uneb.br

1Neokantismo ou Neocriticismo: corrente filosófica que se desenvolveu intensamente na Alemanha a partir de meados do século XIX. Defendia o retorno a Kant (Zurück zu Kant), opondo-se ao idealismo objetivo de Hegel, predominante na época, e a todo tipo de metafísica. Requisitavam o aprofundamento da filosofia kantiana em duas perspectivas: em direção a uma racionalização da religião e em direção a uma teoria do conhecimento.

2Para citação da Crítica da razão pura será utilizado, as iniciais da obra em alemão "KrV" (ou: Kritik der reinen Vernunft), seguido das iniciais da tradução em português; a seguir, números arábicos indicando o número da página, precedido pelas letras A ou B, que indicam respectivamente a primeira (1781) ou a segunda edição (1787).

3Físico teórico alemão, ganhador do premio Nobel de Física em 1932 pela criação da mecânica quântica.

4“Em primeiro de maio de 1924, por ocasião do bicentenário do nascimento de Kant, Husserl ministra a conferência sobre Kant e a ideia da filosofia transcendental, no qual define “transcendental” a sua fenomenologia e “verdadeira herdeira da filosofia de Kant”. (FICARA, 2010, p. 218).  

5Conforme a fenomenologia, a subjetividade transcendental se constitui como ponto de referimento absoluto da verdade, mas para Heidegger esta subjetividade se constitui como temporalidade do Dasein mediada por uma abertura preliminar que antecede a toda presunção de verdade. Segundo Heidegger, o mundo se abre em geral mediado pelo homem em seu ser (Dasein) e não mediante o exame crítico do homem acerca de um mundo previamente dado.

6 No que concerne ao Historicismo, Heidegger apresenta a mesma objeção referida em nota anterior. O Historicismo toma o subjetivismo como algo evidente que percorre toda história, concebendo esta como objeto de uma ciência, mas para Heidegger somente a partir do modo de ser do Dasein, isto é, do seu enraizamento na temporalidade, se torna possível a história como objeto de uma ciência.

7No prólogo da quarta edição alemã de Kant e o problema da metafísica, Heidegger diz: “Quando preparava as lições sobre a Crítica da Razão Pura de Kant, para o semestre de inverno de 1927/1928 me deparei no capítulo do esquematismo e me dei conta que existia uma conexão entre o problema das categorias, isto é, entre o problema do ser da metafísica tradicional e o fenômeno do tempo. Foi assim que a questão levantada em Ser e Tempo se converteu na chave da explicação de Kant que eu tinha em perspectiva – O texto de Kant foi o recurso de onde extrai – no próprio Kant – um porta-voz para a questão ontológica por mim levantada (HEIDEGGER, 1996 e, p. 07).

8Definição segundo a qual o conhecimento transcendental trata não do conhecimento de objetos, mas do nosso modo de conhecer os objetos (KrV/CRP, B25).

9Especialista em Kant e Heidegger tem explicitamente publicado trabalhos em defesa da interpretação da analítica transcendental como teoria do conhecimento em detrimento da leitura heideggeriana.

10 A defesa do neokantismo em prol da Crítica da Razão Pura como teoria do conhecimento e não como ontologia tinha por referência a metafísica em sua concepção restrita de pretensa área de saber circunscrita ao saber acadêmico. Conforme já foi dito, visa investigar a quididade dos entes. Ainda que a intenção e os argumentos de Loparic se confundam com os do neokantismo, no entanto, o sentido de metafísica que está em questão não é o mesmo da tradição ontológica do neokantismo. Neste ponto, Loparic não leva em consideração esse distanciamento específico entre Heidegger e a tradição metafísica.

11Termo utilizado por Heidegger para indicar que a existência é um espaço transcendental de constituição do poder-ser, a cada instante assumido pelo Dasein como ser que é.

12Platão como o pivor inicial do ser e do pensamento metafísico ao conceber o ser como ideia, a mais elevada de todas as idéias. Quando Platão estabelece a ideia como a mais elevada de todas, pré-delineia a interpretação metafísica do ser como valor que guia o pensamento na história do homem (HEIDEGGER, 2007 b, p. 167).

13Heidegger apresenta um sentido de metafísica que sobrepões ao que é concebido na tradição e ao se posicionar neste sentido, ele questiona a interpretação de metafísica da tradição. Para Heidegger, pensar é um acontecimento metafísico e neste sentido o domínio da metafísica tradicional é um âmbito dentre outras possibilidades. Esse domínio da metafísica tradicional não é nem absoluto e nem originário, portanto quando Heidegger apreende a Crítica da Razão Pura como metafísica, ele não está a apreendê-la no sentido restrito da tradição.  A metafísica se apresenta pra Heidegger como o pensar que se realiza como ultrapassamento na direção da projeção, seja ela denominada de essência, verdade do ser, possibilidade de conhecimento ou simplesmente nada. Portanto, quando Heidegger concebeu a Crítica da Razão Pura como metafísica e não como teoria do conhecimento, iniciava a tarefa de abandono da interpretação metafísica da metafísica tradicional que viria a receber a denominação de superação da metafísica. Superação está que visa discutir e apresentar o lugar da interpretação da metafísica tradicional ao tempo em que apresenta a dimensão do sentido de metafísica em que se articula seu pensamento.

14 Nas ciências factuais os objetos, fenômenos ou processos com os quais se ocupam podem ser alterados deliberadamente, a fim de se verificar em que medida as hipóteses correspondem aos fatos.

15Referência às investigações que se articulam a partir de um ente posto, isto é, de um ente concreto, delimitado e previamente definido e que se manifesta, garantindo o conhecimento científico e, deste modo, se caracteriza como conhecimento positivo, o que significa dizer que a essência da verdade da ciência repousa na sua positividade, isto é no seu positum.

16Das Naturbild in der heutigen Physik, in: Die Künste in tecnischen Zeitalter, Munique, 1954, p. 43s.

17Posteriormente, mediante aprofundamento na temática metafísica, Heidegger se deu conta que a Crítica da Razão Pura, ainda não expressava devidamente a sua concepção de metafísica. Deste modo, passa a considerar que, em certo sentido, a obra kantiana ainda permanecia sob os  domínios da metafísica tradicional.





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