PROBLEMA OU MISTÉRIO? O ESTATUTO DA FILOSOFIA VIA GABRIEL MARCEL

Claudinei Aparecido de Freitas da Silva

Resumo


Tônica recorrente nas reflexões de Gabriel Marcel, a distinção entre “problema” e “mistério” assume, sem dúvida, um teor singular. O que o autor remarca, nesse agenciamento, é o estatuto próprio da filosofia, sobretudo num momento em que se assiste a um notável prestígio da ciência como discurso paradigmático, por excelência. A principal especificidade desse modelo é a de que se defronta com “problemas” e “soluções” num âmbito estritamente metodológico e, portanto, imparcialmente abstrato. Embora não refute a legitimidade da ciência e seu peculiar procedimento, o fazer filosófico possui uma natureza diversa, adotando, pois, uma atitude mais “interrogativa” do que pragmaticamente “resolutiva”. É nessa direção que o abstracionismo epistêmico impelido por sua força retórica se impõe como uma questão mal colocada quando se trata de pôr, in concreto, as questões essencialmente filosóficas. Essas, em rigor, se movem num nível de experiência mais profunda, qual seja, a do “mistério” vislumbrado como um horizonte, por definição, “meta-problemático” desde onde se avivam os mais inquietantes “enigmas”. 

Palavras-chave


Gabriel Marcel. Filosofia. Mistério. Ciência. Problema.

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DOI: https://doi.org/10.7443/problemata.v9i2.38078

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